quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Mais um dia como outro qualquer..

Ela estava atrasada. Como sempre, estava atrasada. Ninguém mais sequer ligava para o fato dela estar atrasada, somente ela mesma. É um sentimento de culpa que ninguém deveria sentir, afinal, é uma das culpas mais idiotas que você poderia sentir (fala sério...se sentir culpado por faltar a aula? se sinta culpado por não ter ido à Disney, ou por não ter tempo suficiente pra ler TODOS os livros do mundo, mas certamente não sinta culpa por matar aula).
Ela entrou abruptamente no ônibus com a mente no que estava perdendo, ela não tinha certeza da aula que estava perdendo, mas que se dane também, afinal, já estava perdendo mesmo.
Ela notou que todos no ônibus olhavam pra ela. Devia ser o fato de estar vestida com um colete meio brilhante e por baixo uma blusa "cor-sim-cor-não", um estilo meio chamativo para uma cidade como a que ela vive. Na realidade ela notava que quase tudo que ela usava era bem chamativo para uma cidade como a que ela vive!
Ela se senta então em um dos assentos disponíveis no ônibus. Olha a sua volta, escuta calmamente a sua música. O ônibus então subitamente fica lotado, aquele horário é normal lotar o ônibus, mas devido ao monopólio, ninguém podia falar muita coisa...somente reclamar pro motorista e pro cobrador, como se eles nunca sequer tivessem ouvido algo do gênero.
Ela nota a impossibilidade de descer antes da parada que ela pretendia (já que estava atrasada, ia fazer uma visitinha ao pessoal de outros cursos).
As pessoas começam então a descer do ônibus, ela não consegue, com seu pouco mais de um metro e meio, se sobressair no meio de tanta gente.
Uma senhora é a última em sua frente com uma criança a sair. Por causa da criança ela leva um pouco mais de tempo. Ela aguarda impacientemente para descer.
Eis que quando chega à porta, a senhora, munida da criança, vira e senta em um dos assentos livres perto da porta. "Filha da..", ela pensa, e caminha um pouco mais rápido em direção a porta de saída do ônibus.
Porém, já é tarde demais: o cobrador já havia apertado o botão, sinalizando ao motorista para que feche a porta. "Vai dar!", ela pensa, aparentemente não conhecendo a velocidade que uma porta de ônibus fecha, mesmo freqüentando um desses diariamente nos últimos 5 anos.
O que ela mais temia ocorre: a porta do ônibus subitamente fecha no meio de seu tórax. O braço direito, a cabeça, a perna direita e metade de seu peito para fora. O braço esquerdo, a perna esquerda e metade de seu peito para dentro do ônibus.
"Hmmm", ela pensou. Mas falou: "ah, merda". Realmente não havia gostado muito da situação, na verdade nunca sequer havia imaginado essa situação.
Ela começa então a bater insistentemente na porta com a única mão que possuía para fora do ônibus. Após algumas batidas desiste, começa a murmurar desaforos para si mesma: "só comigo mesmo.." é uma das coisas que mais repete. Vê então que do lado de fora no ônibus há somente uma pessoa na parada. Um jovem que olha meio perplexo com a situação. Sem ter mais o que fazer, ela abana com a mão que possui fora do ônibus para ele, e diz "Oi". Nunca havia imaginado a situação, e muito menos que abanaria e daria um "Oi" brincalhão para um desconhecido, lembrou que se fossem em outras épocas, sairia vermelha e com vergonha de si mesma, que bom que não mais é aquela pessoa!
Quando finalmente o motorista escuta os apelos das pessoas que estão dentro do ônibus presenciando a cena toda, ele resolve, aparentemente por bondade, abrir a porta.
Ela é subitamente jogada do ônibus, tendo em vista que já estava metade pra fora, ela simplesmente continuou o trajeto que estava sendo desferido por seu corpo.
Ela se vira e vê a cara atônita dos passageiros do ônibus, dava pra sentir a perplexidade no olhar deles se perguntando "será que ela está bem?". Mas sim, ela estava bem. Melhor ainda agora que a sua liberdade dada pela constituição estava novamente assegurada, ela ergueu sua mão para os passageiros do ônibus que aos poucos estavam indo juntamente com o ônibus e disse: "valeu" (um valeu bem sarcástico, eu diria). Obviamente que esse valeu não foi para os passageiros, foi para a personificação que agora o ônibus possuia, uma personificação engraçada, mas não necessariamente boa.
Quando ela se virou, viu que o jovem que antes olhava perplexo, agora possui em seu rosto estampado claramente uma mensagem que pode apenas ser traduzida pela frase "Que merda, hein?", misturado com um sarcasmo e um sorriso de deboche.
Ela capta a mensagem e ao passar por ele, sorrindo da situação diz: "Que merda, hein?" e sai a passos largos rindo da situação. O jovem desaba rindo.
O resto do dia ela tem problemas para se concentrar. Não que ela já não os tenha normalmente, mas o rosto das pessoas fica estampado em sua mente. Ela lembra de olhar se o colete não havia sido danificado, tendo em vista que nem pago ele ainda estava (somente meses depois conseguiu pagar o colete ao amigo que pagou pra ela na hora que o cartão “se recusou” a passar na loja). Mas agora somente uma coisa lhe vem à mente junto de um sorriso: "legal..."

2 comentários:

  1. Eu tenho uma nova meta na vida: Ficar preso na porta do ônibus.

    Ou conquistar 24 territórios...

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  2. Que merda, hein? ahuahuauhahauha

    Baseado em fatos reais*?


    *Fato real? E tem "fato fictício" agora? Como assim?

    Eu ODEIO pleonasmos.

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